domingo, dezembro 09, 2007

Viagens

Olhos puros …cristalinos,
anverso de alma incidentes.
Não falam, sussurram.
Não tocam, inquietam.
Não abraçam, envolvem.
Não choram, enobrecem.
Não beijam, dissolvem.
Não mentem, transparecem.
Não sonham, almejam.
Não bebem, alimentam.
Não sorriem, enternecem.
Não calam, afirmam.
Não negam, partilham.
De olho postos nos teus,
os reflexos reversos que antevejo
confundem-se sempre com os meus.

Navego pelo único barco plantado.
Não temo as tempestades,
nem os monstros, nem os medos…
porque não há desconhecido.
Inútil bússola, inútil norte!
Quantas vezes me perdi…
Onde começa, onde termina…

Sem bússola, sem norte,
sem destino ou sorte
conheço estes mares de lés a lés…
os medos, os monstros, as tempestades,
os recantos secretos, os tesouros e as fantasias.
Pelos mergulhos singulares e recorrentes….
vamos perder-nos sempre e, outra vez!

sábado, agosto 25, 2007

A Lua morreu

Acabaram-se os luares!
Repousaram-se as marés!
Os poetas diletantes
perderam o seu farol.
Domados os amantes
a paixão perdeu fulgor.

Nova, crescente, cheia, minguante…
Ciclos gerados na Natureza inconstante.
Órfãos da Lua, fecundados pelo Sol,
ansiamos o regaço incondicional que nos acolhe.

Detrás da mesma face exibida
se esconde o lado mais oculto.
Fortaleza de prata por "Selene" erguida,
de enigmas e mistérios é hoje ruína.
Pois intuídos os sonhos, e sentidos os medos,
num Auto de fé – a alma foi vencida.
Pelos resquícios do luar balsâmico
vamos assistindo o Sagrado lastimar o Profano.

Sol e Lua, a capicua,
cara e coroa do mesmo céu.
“Unio Mystica” reflectida,
luz da sombra que desvaneceu.
Abismal é a perda, cruciante a dor,
eterna e pungente a lembrança
do seu único e eterno amor.
Dourado, o quebranto
O luto, deletério branco.

sábado, julho 21, 2007

Para lá da eternidade…

Antecipo uma vez mais a alvorada.
Noite arrastada – minha recente morada.
Ornamentos de enfado vertem pelas paredes das horas.
Amorfa ás sensações, trasfego com inusitadas demoras.

Impassível, surge o dia sem resistência.
À volta tudo permanece inalterável…
só é maior a tua ausência,
sustento de um vazio alienável.

Não vivo…sobrevivo!
Não sonho…desisto!
Movimentos autómatos ausentes de mim,
preenchem de inércia o dia sem fim.

No meu corpo nada resta do teu.
Tatuadas as memórias debaixo da pele,
infinitos mergulhos a que o beijo impele,
o brilho dos olhos vitrificou… desvaneceu!

Na origem do crime reside o móbil,
mas a lógica não achou desígnio.
Na Fé, há confiança no destino traçado,
mas maior é a revolta do futuro que é passado.

Não há lógica na morte… ciclo imutavelmente ignóbil.
Não há apaziguamento na fé…se a intransponível ausência é vaticínio.
À volta tudo permanece inalterável…

Perdeu-se…o ser, sem reflexo de outrora.
Quebrou-se…a âncora, à deriva no mar aberto.
Alheou-se…de tudo, num abnegado vazio acumulado.
…só eu mudei no mundo avesso.

Estás aqui, sinto-te,
na doce brisa que me afaga o rosto,
na cadente sombra que me embala o corpo,
no forte aroma que me percorre os cabelos,
no leve sussurro que me acaricia os dedos,
no paladar das memórias que me devolve os beijos
fecho os olhos…e és tu.

Sobrevivo de ilusões e miragens,
falo contigo sem esperar resposta,
morreste para o mundo, mas jamais em mim.
O Fantasma sou eu!

Não temo "o dia do julgamento",
o inferno não seria maior que a ausência que vivo.
Caminho ao compasso dos dias que me levam mais perto …
do nosso esquecimento, até à última dança.
O derradeiro desejo, reencontrar-te…
…para lá da eternidade!

domingo, abril 08, 2007

Percepção sensorial

Estática, cerro os olhos num silêncio afincado
Para na hipnose instigada de um mergulho diligente
Me aventurar pela percepção do perfume dos sentidos.
Cada aroma uma memória, cada sabor uma canção
Estímulos intemporais revelam uma nova dimensão.

O cheiro a terra molhada…é a promessa da Natureza revigorada
O cheiro de criança…é a promessa de infinitos sorrisos de Esperança
O cheiro da infância…é a promessa à essência sem percorrer distância
O cheiro do teu corpo… é a promessa em mar de um constante anteporto
O cheiro dos que partiram…a certeza de que em nós ficaram.

Nos milhões de enigmáticos e mágicos aromas a descobrir
Reside a completa e derradeira experiência do sentir.
Inalar fantasias, despertar memórias… respirar o presente
É apreender melhor o mundo, viver mais intensamente!

Renasço a cada nova fragrância, nutrindo a alma de apurada existência.

domingo, fevereiro 25, 2007

Lastimosa criatura, patética até talvez…
Na entrega pressente apenas um coração desfeito,
temendo que “o dar” lhe turve a hipotética lucidez.

A criatura temerosa, encobre-se então na letargia
para erguer as muralhas de um lúgubre vazio afeito
protegendo-se “do sentir”, que crê germinar de nós o peito…

Mas que dó, observar a tacanha cena…
Alhear-se “de amar” - origem da Liberdade!
É fustigar-se numa injúria à afectividade.

Apago a luz e o reflexo desaparece…

domingo, janeiro 21, 2007

Crime sem contrição

Envolta numa perturbante aura de silêncio espectral
vai levitando insondáveis passos na penumbra.
E é nesta atroz moldura viva que a ferro e aço
se vai desenrolando o funesto retrato:

Absoluto vestido de manobradas amarras,
madeixas toldadas de lembranças emaranhadas
lançando das estigmáticas mãos, as ausências não purgadas
para me ferir com olhar agudo, de ilusões desaustinadas.

Sem polidez ou sobreaviso, num sagaz e ardiloso embuste
me envolveu assim no cativo abraço glacial
para altiva me largar inerte na imensidão
de um doloroso vazio breu de solidão.

Lentamente esmoreci, envolvida de pesar
no turvo nevoeiro de um dó intenso
que me quebrantou em mil esquissos o coração
numa visceral e intensa dilaceração.

Mas exausta de sorrir sempre que chorava,
inebriada de dor, pela insana tortura
agarrei o diáfano punhal de ditosa aresta
e cometi o crime sem contrição!

Fechei todas as feridas para velar o passado
despedindo-me do cadáver que sucumbiu a meu lado.
E, livre do pesado manto que me cobriu de danos
lavei o punhal com as lágrimas de despedidos prantos

Caminho hoje ao sabor do vento
sussurrando palavras sem lamento…
…matei a Saudade.
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